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Tradição

A Fazenda

Desde 1854

A fazenda Nossa história

A fazenda

No ano de 1821 o Brigadeiro Manuel Rodrigues Jordão comprou uma gleba de terras na lendária Sesmaria do Morro Azul pertencente aos irmãos Galvão de França e Manuel de Barros Ferraz.

Seu filho, o Barão de São João de Rio Claro, fundou em parte desta gleba, em 1854 a Fazenda Santa Gertrudes.

O Nome de Santa Gertrudes foi posto pelo Barão em homenagem à memória de sua mãe, D. Gertrudes Galvão de Moura Lacerda.

Após a morte do Barão, sua mulher e viúva Baronesa D. Maria Hipólita dos Santos casa-se, em 1873, com o Marquês de Três Rios que assim passou a ser o 2º proprietário da fazenda. Por sua iniciativa a fazenda foi servida pela estrada de ferro que trouxe grande progresso e desenvolvimento à região.

Por morte do Marquês e de sua mulher, que não deixaram geração, a fazenda foi herdada por D. Antônia dos Santos Silva Prates, irmã da Marquesa de Três Rios e casada com o Conde de Prates. Foi exatamente nesta época e por iniciativa do Conde, homem influente e grande empreendedor, que a fazenda atingiu seu maior apogeu. Entre 1890 e 1910 , o Conde construiu uma das maiores e mais tecnificadas estruturas de plantação, benefício e comercialização do café o que implicava em carpintaria, ferraria, selaria, tulha de café, máquinas de banefício, armazéns, marcenaria, escola, cinema, cocheiras, currais, barragens, aquedutos, igreja, mirantes, usina a vapor para fornecimento da energia elétrica além de cunhar sua própria moeda.

Toda essa estrutura continua preservada. São mais de vinte e dois mil metros quadrados de construção harmoniosamente criada pelo bom gosto de um arquiteto francês que, há mais de um século, se sujeitava às regras de um plano acadêmico diretor.

Nas primeiras décadas do Século XX, a Fazenda foi sempre considerada modelo e por isso foi visitada por pessoas ilustres que chegavam de São Paulo vindas de trem e eram recebidas na estação da Vila, antes chamada Gramado e hoje Santa Gertrudes, pelo Conde de Prates com suas carruagens sempre reluzentes e impecáveis.

Atrativos

A fazenda com sua arquitetura francesa e já centenária recebe visitas levando-as aos tempos áureos do café desde a colheita até ao embarque na estação de trem, passando por todos os processos intermediários.

O percurso com duração de duas horas permitirá ao visitante uma idéia real do trabalho e da técnica numa época em que todo o transporte era efetuado em lombo de burro, de carroção ou em carros de bois, e a energia elétrica provinha do vapor e de rodas de água, a mão-de-obra era toda importada da Europa além de todos os produtos acabados como o ferro, o cimento e as telhas.

As visitas são realizadas sob agendamento antecipado e formando grupos de:
Mínimo de 20 pessoas com café ou lanche da tarde - R$ 28,00* por pessoa
Mínimo de 40 pessoas com café e almoço ou almoço e lanche da tarde - R$ 58,00* por pessoa
* Preços podem sofrer alterações sem prévia notificação.


Nossa história

A Fazenda Santa Gertrudes, com mais de um século de existência, 1854 - 1998, ao contrário de muitas fazendas cafeeiras que tiveram um curto período de vida, venceu todas as crises e mudanças sociais e econômicas advindas durante todo esse período constituindo-se num caso raro deste período.

Alicerçada na sólida fortuna da família proprietária, que permitia investimentos em longo prazo em culturas e maquinarias na eficiente organização administrativa, na observância fiel a legislação, chegando muitas vezes a antecipar-se aos cuidados legais, nas boas relações de trabalho que não chegaram a gerar crises agudas, a Fazenda Santa Gertrudes sempre procurou se adaptar em lugar de sucumbir, as novas circunstâncias. Passou o café, mais a existência desta fazenda como instituição continua, e o ar de decadência ainda não pairou sobre ela.

Esta fazenda constitui, pois um marco na história agrária de São Paulo. A Fazenda Santa Gertrudes originou-se de uma sesmaria, a do Morro Azul (a sesmaria do Morro Azul foi concedida, em 1817, a Joaquim Galvão de França, José Galvão de França, moradores de Itu, e Manoel de Barros Ferraz da Freguesia de Piracicaba) a semelhança de outras importantes fazendas de cana e café como Ibicaba, Morro Azul e Paraguaçu.

Como Ibicaba, que pertenceu a Nicolau de Campos Vergueiro, Santa Gertrudes também teve como ponto de partida as terras de um engenho. Sua origem prendeu-se ao Sítio Laranja Azeda que Amador de Lacerda Rodrigues Jordão (era filho do Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, um dos homens mais notáveis de seu tempo pela sua riqueza e prestígio, e de Dona Gertrudes Galvão de Moura Lacerda, dama honorária do passo imperial, figura representativa da sociedade paulista do século XIX e proprietária de várias fazendas.

Amador de Lacerda Rodrigues Jordão casou-se em 1852 com Maria Hypólita dos Santos Silva, filha do Barão de Itapetininga; foi agraciado em 1858 com o título de Barão de São João do Rio Claro; foi deputado provincial por diversas legislaturas e deputado geral), futuro Barão de São João do Rio Claro, recebeu na partilha dos bens de sua mãe Gertrudes, realizada em 1848.

O Sítio denominado Laranja Azeda, conta à tradição que Amador de Lacerda Rodrigues Jordão teria mudado para Santa Gertrudes em homenagem a sua mãe. Mas esta designação passou a predominar na documentação, a partir de 1856. Inicialmente voltada para o cultivo de cana, com vistas à produção do açúcar e da aguardente, a fazenda Santa Gertrudes pouco a pouco foi deixando de cultivar este produto e paralelamente introduzindo o café.

Em 1857 a fazenda é relacionada como fazenda de açúcar e café, ocupando uma área aproximada de 585 alqueires. No ano de 1861 que marcou o aparecimento do café com a principal atividade agrícola do município de Rio Claro, a propriedade produzia 6000 arrobas de café, 2000 de açúcar e 30 pipas de aguardente.

Entretanto, por volta de 1870, apenas 20 anos a sua formação, a fazenda Santa Gertrudes vinha a ser uma das maiores de São Paulo e seu proprietário um dos maiores fazendeiros de seu tempo com lavouras de riquíssima produção. Quando do falecimento do Barão São João do Rio Claro, em 1873, a Fazenda Santa Gertrudes passou para sua esposa, Maria Hipólita dos Santos Silva. A Baronesa de São João do Rio Claro, em 1876, contraiu segundas núpcias com o Barão e posteriormente Marques de Três Rios que passou então a dirigir os destinos da fazenda até 1893.

Aliás, o ano de 1876 se constitui um marco na história da Fazenda Santa Gertrudes não só pela mudança de seu proprietário como também pela chegada dos trilhos da Companhia Paulista de Estrada de Ferro a Rio Claro.

Pouco mais de 40 anos após a sua formação, em 1893, a Fazenda Santa Gertrudes cobria uma área de aproximadamente 700 alqueires, portanto sua expansão já se fizera por mais de uma centena de alqueires; produzia 30000 arrobas de café, quintuplicara sua produção em 1861 quando o número de arrobas chegava apenas a 6000, colocando-se como o maior produtor de café do município de Rio Claro.

A sede da fazenda, com requintes de uma verdadeira casa urbana, fato normal em São Paulo no período áureo da expansão cafeeira, consistia de uma verdadeira casa senhorial. Os terreiros em parte atijolados e as dependências para máquinas de benefício do café, situados nas proximidades da sede completavam-se com as colônias espalhadas entre os 600000 pés de café.

Oitenta e cinco casas para colonos formavam o núcleo habitacional dos trabalhadores. Os bens móveis e imóveis da fazenda foram avaliados em 1893 e as transformações operadas pelo café de 1848 a 1893 aumentaram aproximadamente em 90 vezes o valor da propriedade nesses 45 anos de atividade cafeeira.

Em 1893, com o falecimento do Marques de Três Rios e da Marquesa nos anos seguinte, a fazenda foi herdada por Eduardo Prates casado com a irmã da Marquesa de Três Rios, pois aquela não deixará descendentes diretos. Apesar das alterações resultantes da mudança de proprietário em 1895 não houve quebra no ritmo ascendente da fazenda.

Eduardo Prates acelerou ainda mais. Tornou-se proprietário da fazenda num período excepcionalmente favorável à expansão do café. Eduardo Prates conde pela Santa Sé, de acordo com o título agraciado pelo Papa Leão XIII, era ativo homem de negócios, o capitalista de São Paulo, em 1895 se viu fazendeiro de café, proprietário da Fazenda Santa Gertrudes, considerada uma das mais importantes cafeeiras.

Não era Eduardo Prates o pioneiro em terras novas a despender energia e capacidade na luta contra a natureza, mas o proprietário enérgico e capaz, preocupado em estabelecer uma tecnologia mais avançada para o maior desenvolvimento de sua propriedade. Era o citadino transformado em fazendeiro, que ao receber como herança à fazenda (que pertencera à irmã de sua esposa), levou para o campo toda a sua vivência de homem de negócios, sempre aberto às inovações. Dedicava-se as atividades comerciais (importações e imóveis urbanos), bancárias, ao fomento da companhia paulista de estradas de ferro, da companhia de armazéns gerais de São Paulo e ainda a outras companhias de transportes e indústrias.

Atuante, como exigia sua época Eduardo Prates foi membro de associações para os seus interesses econômicos como a associação comercial e agrícola de São Paulo e a Sociedade Rural Brasileira. Eduardo Prates, entre os muitos afazeres empresariais da sua vida, completava com atividades religiosas e filantrópicas, o que no Brasil, país oficialmente católico, não era só prova de fervor religioso, como proporcionava as pessoas que as executavam um grande prestigio social e que a Eduardo Prates valeu, inclusive, o título de conde pela Santa Sé.

Em 1898 a sede já era iluminada a gás acetileno e quatro anos mais tarde 1902, um contrato com a central elétrica de Rio Claro trouxe este novo tipo de energia e iluminação para a fazenda. Em 1904 o telefone colocava a propriedade em contato com vários núcleos urbanos. Uma maior necessidade de energia para movimentar suas máquinas e as constantes quedas de energia elétrica prejudicavam a produção, o que levou Eduardo Prates a romper com a central elétrica de Rio Claro e acentou um motor Wolf, instalando assim uma usina elétrica própria.

O desenvolvimento da fazenda Santa Gertrudes e a construção da estação da companhia paulista de estrada de ferro nas suas proximidades fizeram com que surgisse e prosperasse o atual município de Santa Gertrudes (1948) A proximidade da fazenda com a capital Paulista - apenas quatro ou cinco horas por via férrea, permitia ao viajante tomar contato com uma fazenda cafeeira em um ou no máximo dois dias, tempo suficiente para percorrer as instalações e plantação.

Os visitantes da fazenda eram muitas vezes convidados pelo próprio governo do estado de São Paulo; outros convidados do proprietário ou de seus amigos. As visitas vinham geralmente da capital em trens da Companhia Paulista de Ferro.

A importância da fazenda Santa Gertrudes não reside apenas no fato dela ter sido uma propriedade modelar na cafeicultura paulista, digna de ser vista por ilustres personalidades. A Fazenda Santa Gertrudes foi a mais importante propriedade cafeeira do município de Rio Claro, no velho oeste paulista. Propriedade modelo era um exemplo da complexa empresa capitalista cafeeira.

Esta fazenda possuía a maior concentração de trabalhadores estrangeiros e seus descendentes, dentre as fazendas da região. Foi possível localizar para o período de 1897 - 1902 famílias italianas que se destinaram a fazendas de Santa Gertrudes, assim como famílias nacionais, cearenses, que em 1920 também se encaminhavam para aquela propriedade. Para o período de 1903 - 1914 os registros das hospedarias anotam algumas poucas famílias italianas, austríacas, portuguesas e espanholas que se dirigiram àquela fazenda, já para 1915 - 1920 os livros não apresentam nenhuma família para Santa Gertrudes. Porém os documentos da fazenda mostram a chegada de várias famílias italianas e espanholas, procedentes da Argentina, e para 1918 - 1919 a entrada de japoneses nesta propriedade. Para o ano de 1920 os registro das hospedarias mostram que mais de uma centena de trabalhadores nacionais, cearenses, se encaminharam para aquela fazenda. Para o período de 1921 - 1930, quando a imigração nacional começou a sobrepujar a estrangeira, a hospedaria não registra mais imigrantes em direção àquela fazenda.

Nos livros preservados, e que compõem o acervo da fazenda Santa Gertrudes, encontram-se informações minuciosas sobre a família trabalhadora, no que diz respeito a seu tamanho, sua força de trabalho, sua produção e seus rendimentos monetários, além de fornecer algumas pistas sobre a lavoura de subsistência por ela praticada. Fazendas Trabalhadoras na Fazenda Santa Gertrudes Na Fazenda Santa Gertrudes predominavam os trabalhadores europeus, tanto no cultivo de café como, em atividades complementares. Os italianos e seus descendentes sempre se constituíram maioria entre os colonos; a seguir vinham os portugueses, espanhóis, e alguns poucos de origem germânica.

Os japoneses não se adaptaram ao trabalho nesta propriedade e os nacionais até 1920 foram uma pequena minoria, aparecendo com mais intensidade após esta data, quando uma grande leva de cearenses foi aí introduzida.

Entre 1895 a 1930, os trabalhadores de origem italiana representavam em média, cerca de 65% da mão-de-obra empregada sobre o regime de Colonato. Esta porcentagem foi maior nos anos próximos aos 1900, uma vez que a entrada de italianos no Brasil foi, na virada do século, também mais volumosa.

No período de 1909 - 1918, quando a imigração italiana para o café já havia declinado bastante, os colonos de origem italiana, perfaziam em média, 64% do total dos colonos da fazenda. Para cuidar de aproximadamente 1.000.000 de pés de café, esta propriedade necessitava manter por volta de 150 famílias para não ter que se utilizar trabalhadores avulsos assalariados.

O emprego destes, os camaradas, aumentava em muito o custo da produção. Assim sendo, para evitar os prejuízos que a instabilidade do colono provocava, o recrutamento constante de novas famílias, era sempre a grande preocupação do fazendeiro.

Cálculos efetuados mostram que na Santa Gertrudes deveriam ser contratadas, em média, 35 novas famílias todo ano. Estas famílias proviam ou diretamente das hospedarias dos imigrantes em São Paulo, ou eram arregimentadas nas fazendas da redondeza e ou nos municípios da região. Famílias para o Café: italianos e cearenses.

Os dados levantados na hospedaria dos imigrantes, sobre as famílias com destino a Santa Gertrudes, referem-se principalmente as famílias italianas que se dirigiram à fazenda entre 1897 - 1902 e as famílias cearenses. Que adentraram nesta propriedade em 1920.

O tamanho e composição das famílias têm a ver com a própria estrutura familiar do grupo no país de origem, no caso da Itália, por exemplo, as famílias de pequenos proprietários, arrendatários e meeiros de Veneto, que predominaram na imigração para o Brasil no período anterior a 1885 eram famílias ampliadas, formadas por dois ou três homens, respectivas mulheres e filhos. Já, as famílias de Braccianti também de Veneto, que formaram a grande maioria de braços para o café, após 1885, segundo depoimentos da época, possuíam cinco pessoas no máximo, normalmente casal com filhos e algumas vezes integravam-na o pai ou a mãe do chefe.

Para o período de 1903 - 1914 os registros das hospedarias anotam 30 famílias de origem européia para Santa Gertrudes. Destas 63% eram italianas e austríacas e as restantes portuguesas e espanholas. Em 1920 foram introduzidos na fazenda, os cearenses num total de 132 famílias, e cujo tamanho era, em média de 4,8 pessoas. Diferentemente das italianas, as famílias cearenses incluíram com muita freqüência além de pais e irmãos do chefe, agregados, cunhados, tios, primos, sobrinhos, avós e netos, numa clara demonstração de que se afrouxaram as exigências quanto à composição da família que deveria receber a passagem para a cafeicultura paulista.

Constata-se por outro lado, que mulheres chefes de família apareciam com certa regularidade o que era bastante raro entre as famílias italianas e européias de modo geral. No caso dos cearenses predominava como chefe às viúvas, mas ocorriam também caso de mulheres solteiras com filhos e mulheres casadas, sem marido, com filhos e outros parentes.

Para a cafeicultura, o que mais importava era a quantidade de elementos aptos para o trabalho preferencialmente homens. Entendia-se por "pessoa de trabalho" o indivíduo a partir dos 12 anos de idade até por volta de 60 - 65 anos. Interessava também ao fazendeiro conhecer, além do número de elementos de trabalho, o tamanho e composição da família, pois os demais membros poderiam ser utilizados na colheita, o que podia ocorrer a partir de 7 ou 8 anos de idade.

A própria hospedaria dos imigrantes, como agente de mão-de-obra vinculado, na época, aos interesses do café, além de classificar os indivíduos por sexo, distribuía-os em três grupos etários: de 0 a 12 anos, de 12 a 45 anos e mais de 45 anos, numa clara demonstração da importância de se conhecer o potencial da força de trabalho destas famílias. Aliás, entreas exigências para que a família conseguisse obter a passagem subsidiada era que ela fosse de agricultores e tivesse pelo menos um elemento masculino entre 12 e 45 anos. Dos italianos (55%) e dos cearenses (60%) possuíam 12 anos ou mais e, portanto, eram considerados aptos para o trabalho.

Uma amostra significativa destas mesmas famílias, localizada na documentação da fazenda Santa Gertrudes, no momento de sua chegada na fazenda aponta que 49% dos italianos e também dos cearenses eram "pessoas de trabalho". Esta amostra compõe-se de 26 famílias italianas com 126 pessoas, sendo 62 "de trabalho" e 101 famílias cearenses com 498 pessoas sendo 246 "de trabalho". Partindo-se então do pressuposto de que todos os homens maiores de 12 anos fossem trabalhadores efetivos, poder-se-ia deduzir que a diferença entre as porcentagens apresentadas acima (55% - 49% = 6% para os italianos e 60% - 49% = 11% para os cearenses) ficasse por conta das mulheres com mais de 12 anos que não participavam do trabalho produtivo. Aplicando-se estas porcentagens as 26 destas famílias identificadas na documentação da fazenda Santa Gertrudes obtém-se que 70 das 126 pessoas deveriam possuir 12 anos ou mais (36 eram homens e 34 mulheres).

Se todos os homens com 12 anos ou mais fossem considerados trabalhadores e se o total de trabalhadores era 62, concluí-se que das 34 mulheres, 26 apenas estavam incluídas na força de trabalho. O retrato das famílias imigrantes para o café, no momento de sua introdução a São Paulo, deixa entrever que independente de sua origem e ao contrário do que pretendia os fazendeiros, famílias numerosas e com muitos braços, essas famílias não eram grandes. Possuíam tamanhos médios de cinco elementos e relativamente jovens.

A Família no Trabalho do Café: Produção e Assalariamento O Colonato ao combinar distintas formas de produção, proporcionava ao colono um pagamento em dinheiro pelo trato e colheita e também a produção da sua subsistência. O dinheiro que ele recebia pelo trato e pela colheita geralmente não cobria as necessidades de sobrevivência da família. Os salários pagos aos colonos variavam de região para região, de fazenda para fazenda, de ano para ano, dentro de uma própria fazenda. Seu valor estava diretamente ligado as condições oferecidas para a lavoura de subsistência e praticamente independia das condições de oferta e demanda de mão-de-obra.

Estes salários provinham de três fontes: Do trato, de um certo número de pés de café, pago por unidade de 1000 pés; o trato consistia em fazer a limpeza das ervas daninhas de três a cinco vezes ao ano; Da colheita paga pela quantidade de alqueires de café colhido (um alqueire de café equivalia a 50 litros); Das diárias, isto é, dias de trabalho avulso prestado ao fazendeiro conforme as necessidades da fazenda.

A documentação da fazenda Santa Gertrudes permite verificar o quanto cada uma das fontes de rendimento monetário representava no total do rendimento familiar, quer em relação ao tamanho da família, quer em relação à força de trabalho, quer ainda em relação aos anos de boa ou má safra.

O trato tanto em relação ao tamanho da família quanto ao número de trabalhadores chegava a representar quase a metade do rendimento monetário do colono, enquanto a colheita era responsável por cerca de 39% ficando o restante por conta da diária e outros serviços.

Embora estas proporções não variem muito quando se trata do tamanho da família, o trato quando é relacionado com um número de trabalhadores tem uma leve tendência a diminuir enquanto as outras fontes no geral tendiam a aumentar ligeiramente a sua participação no rendimento, à medida que aumentava também o número de trabalhadores no grupo familiar.

A documentação da fazenda Santa Gertrudes permitiu estimar o orçamento de uma família colona naquela propriedade, para o ano de 1913. Esta família, composta de marido, mulher, dois adolescente entre 12 e 16 anos e mais uma criança pequena aparece na documentação da fazenda como uma família de 5 pessoas e duas enxadas. Em 1913 ela tratou de 5081 pés de café recebendo por isso a importância de R$ 406$480, colheu 903 alqueires de café no valor de R$ 415$500 (este foi um ano de excelente safra) e executou 33,25 diárias no total de R$ 74$625, além de receber R$ 90$300 de gratificação pela colheita paga pelo fazendeiro a todos os colonos que concluíram o ano agrícola em Santa Gertrudes.

Portanto, esta família recebeu da fazenda a importância de R$ 986$905. Isto posto, pode-se inferir que o sistema de colonato apresentava-se vantajoso para as famílias que se e encontravam no ápice de sua capacidade produtiva e soubessem se beneficiar ao máximo da mesma. As famílias empregadas nas fazendas mais próximas aos núcleos urbanos possuíam uma opção de vender o excedente da sua produção de subsistência e fazer aí as suas compras evitando os preços mais altos cobrados no armazém da fazenda, numa época em que os gêneros de primeira necessidade estavam bastante caros.

Finalmente, é preciso ressaltar que para o sucesso ou insucesso da família neste sistema também interferiam em outros fatores.


Conde Prates

Dois prédios gêmeos construídos na década de 1910 e que faziam parte do plano de remodelação do Anhangabaú concebido pelo urbanista francês Joseph Bouvard. Foram projetados pelo agrônomo baiano Samuel das Neves e por seu filho arquiteto formado na Universidade da Filadélfia Cristiano das Neves ( o mesmo da Estação Sorocabana/Júlio Prestes), e seu proprietário era o Conde de Prates. Eram os prédios mais suntuosos da cidade na década de 1910, e sediaram diversas instituições importantes, como a Prefeitura Municipal, a Câmara Municipal e o Automóvel Clube.

Apesar de seu valor histórico e arquitetônico, o primeiro pavilhão foi demolido no início dos anos 50 para a construção do edifício Conde de Prates, e o segundo em janeiro de 1970, dendo sido erguido em seu lugar o edifício Mercantil Finasa.

Centenário de nascimento de Conde de Prates

Texto escrito pelo ilustre Prof. Máximo Ribeiro Nunes, do Conselho Diretor da Sociedade Amigos da Cidade, publicado em novembro de 1960 no jornal o Estado de São Paulo.

Os "erros ortográficos" existem em função do texto estar transcrito na integra de sua publicação.

A 8 de novembro de 1860, nascia em São Paulo, o ilustre paulista Eduardo Prates, mais tarde Conde de Prates, filho do Dr. Fidêncio Nepomuceno Prates e de Dona Inocência da Silva Prates, filha do Barão de Antonina. Sentindo muito cedo pendores e inclinação pela vida comercial, devotou-se do ramo dos negócios ao qual emprestou o seu espírito dinâmico e a sua invulgar capacidade de trabalho. Desposando a senhora Antônia dos Santos Silva, de velha estirpe paulista, depois Condêssa de Prates, filha do Barão de Itapetininga e da Baroneza de Tatuí, família das mais nobres e honrosas tradições brasileiras, o Conde alargou o seu campo de atividades, tornando-se adiantado agricultor e diligente pecuarista. Pelo seu espírito empreendedor, pelo seu esclarecido tino comercial, por seus marcantes sentimentos altruísticos e pelo elevado porte moral de sua personalidade, tornou-se um dos vultos mais respeitáveis e preeminentes de sua época. Se a sua inteligência e capacidade se voltaram para o mundo dos negócios, os seus elevados sentimentos foram consagrados aos desconhecidos e pequeninos a quem sempre generosamente amparou.

Fidalgo e nobre, bom e generoso, patriarca de uma das famílias de mais ricas e respeitáveis tradições de nossa sociedade, foi também o Conde de Prates um paulista autêntico que, com fibra patriótica, amou profundamente a sua terra ligando-lhe o nome aos maiores e mais significativos acontecimentos de seu tempo. A nobreza e a solenidade de seu porte, a fidalguia de seu trato, o título nobiliárquico de que era portador e sua decorosa seriedade que obrigava ao respeito, fizeram-no pontificar nos mais expressivos meios sociais e econômicos de São Paulo. Conde de Prates foi um incansável semeador de bondade e um infatigável impulsionador de relevantes empreendimentos. Possuidor de fartos recursos, não obstante absorto pelas imensas responsabilidades de suas emprêsas e pelo destaque das posições a que freqüentemente era guindado, tinha como suprema aspiração socorrer àqueles que se valiam de sua desmedida generosidade.

Eis porque a sua inconfundível personalidade fixou para sempre em São Paulo as impressões inesquecíveis de sua peregrina bondade. Aristrocrata de escól, de espírito subtil e coração adamantino o seu nome se perpetua na galeria glorificada de muitas igrejas, hospitais e orfanatos como láurea de gratidão imperecível. Homem de fé e de ação, a sua vida foi uma obra de arte e sua individualidade um símbolo de primor.

Banqueiro, capitalista, comerciante e lavrador, de beleza rara foram porém os seus gestos de filantropia e humanidade.

Na história de São Paulo, erigem-se vultos extraordinários, entre os quais fulgura o do Conde de Prates cuja existência foi um marco luminoso e um exemplo edificante à gerações que o vêm sucedendo.

Vanguardeiro de tantas e imperecíveis iniciativas, serenamente austero, elegante no trato das relações humanas, de notável tino administrativo, criou sempre ao seu redor um ambiente de cordialidade e simpatias, mercê de suas virtudes e da firmeza de seu aprimorado caráter.

Ao longo de seus 68 anos de existência, mourejaram suas idéias e seus sentimentos, em estilo edificante e verdadeiramente raro. Quantas esperanças floriram à sombra dos altares com a sua ajuda anônima e silenciosa! Ninguém jamais bateria à porta de seu palácio sem haver recebido o consôlo de uma ajuda.

Para se tracejar o perfil da alma nobre do insigne e saudoso paulista, bastaria dizer-se que os episódios mais empolgantes de sua vida foram aquêles em que deu muito de si e do que era seu aos que nada tinham ou pouco podiam esperar. Não obstante ocultar o bem que fazia e refugiar-se na mais encantadora e escrupulosa simplicidade os seus benefícios e generosos donativos não conseguiram ficar para sempre no obscurantismo. Eis porque o Papa Leão XIII houve por bem conceder-lhe o honorífico título de Conde e de Condêssa à sua espôsa. A dignificante honraria pontíficia foi a solene gratidão da Igreja Católica aos excelsos sentimentos de bondade e de caridade cristã do magnânimo e ilustre casal. Não é fácil reconstruir em palavras, uma vida tão intensamente profícua e tão pontificada dos mais assinalados serviços ao bem comum.

Nem seriam os meus estreitos recursos os mais indicados para fazê-lo. Do que sei e conheço, entretanto, posso dizer que a sua inteligência e as suas energias morais fizeram com que ainda hoje com reverente saudade resplandeça a sua lembrança nas mais nobres instituições desta cidade.

Membro da 1ª Comissão Fundadora da nova Sé Catedral Metropolitana de São Paulo em 1912, recebeu o título de grande benemérito.

A preocupação pela infância desamparada, foi uma constante em sua vida. Por longos anos foi Grande Protetor do Orfanato Cristóvão Colombo, desvelando-se com paternal carinho pelos pequeninos orfãos os quais freqüentemente visitava e que sentiram bem de perto as emoções do Conde e a sua benevolência e prodigalidade. Apostolando o amparo à pobreza, não foi todavia insensível ao sofrimento físico de seus semelhantes. Exerceu a verdadeira caridade ao ser por longos anos generoso Mordomo da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, a mais santa de tôdas as casas depois da Casa de Deus. Do Convento de Nossa Senhora da Luz, foi, por largo espaço, Síndico e Protetor. E de tal forma o foi que, embora se tratando de Comunidade Contemplativa de freiras reclusas, tinha o Conde licença especial do sempre lembrado Dom Duarte Leopoldo e Silva para ver e ouvir as religiosas auscultando-lhes as dificuldades e ouvindo-lhes os anseios do Convento.

Expargiu, indistintamente, por esta cidade de São Paulo a sua incontrolável bondade.

Assim é que foi também Grande Benemérito da Casa da Divina Providência e Provedor e Protetor da Igreja de Santo Antônio, da Praça do Patriarca, que lhe mereceu o mais dadivoso amparo. As Casas de Educação não lhe ficaram esquecidas. E o Liceu Coração de Jesus foi uma delas.

Quem entrar pelo vetusto Educandário, deparará logo em lugar de honra com o quadro a óleo do venerando Conde, grande benfeitor daquela glória do Ensino, no Brasil, que assim o consagrou na sublimidade de sua gratidão.

Foram tantos e tão grandes os benefícios que ali prestou que não é possível aqui enumerá-los.

Lembrarei apenas que, certa vez, incendiando-se a cozinha do colégio, foi êle quem por 30 dias, manteve a alimentação de 400 alunos internos. Gestos assim tão bélos e tão raros edificam os que praticam. No comêço dêste século, foi êle como que o pai dos Salesianos de São Paulo. A para de auxílios financeiros, ofereceu os sinos que ainda hoje ornamentam o campanário do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, doando ainda em nome da senhora Condêssa o altar de Santo Antônio, mandando mais tarde restaurar o grande órgão que houvera sido ofertado por sua nobre sogra, a Baronêza de Tatuí. Católico por convicção, foi Provedor da Irmandade de Nosso Senhor dos Passos e Irmão do Santíssimo da Sé Catedral de São Paulo. Por tudo isso e por muito mais que as minhas palavras desconhecem ou não sabem dizer, recebeu também êle o Título de Comendador Locotenente da Ordem Eqüestre do Santo Sepulcro de Jerusalém. Que coisa extraordinária e fascinante essa a de poder aliar uma vida tão espiritual e caritativa ao mundo das fecundas e preocupantes realizações materiais! Pois o Conde realizou êsse prodígio. Cidadão de pensamentos sádios e de retas intenções arrebatava-se também pelos grandes e audaciosos empreendimentos materiais.

Vivia-lhe o espírito progressista do pioneirismo. Assim é que foi fundador e Presidente do Banco de São Paulo que ainda hoje opera e prestigía os meios financêiros da Capital. Foi fundador e 1º Presidente da Sociedade Rural Brasileira para cujo crescimento e prosperidade concorreu preponderantemente. A Companhia Paulista de Estradas de Ferro, a mais perfeita organização do gênero na América Latina, teve-o por muitos anos como seu Vice-Presidente e Diretor. Fundou e foi Presidente da Companhia de Armazens Gerais do Estado de São Paulo e de muitas outras emprêsas, tais como, a Companhia de Minerais Santa Rosa, a Companhia Pastoril de Barretos, a Companhia Paulista de Navegação e a Associação Comercial. As práticas desportivas também lhe merecem a simpatia.

Tanto assim que em 1911, foi fundador e 1º Presidente da Sociedade Hípica Paulista que cultiva o mais elegante e aristrocráta dos esportes. Devotado à sua terra, o Conde de Prates contribuiu decisivamente para o seu engrandecimento e vertiginoso progresso.

Atendendo que sua cidade estava predestinada a um desmesurado desenvolvimento edificou 3 prédios no centro da cidade, os mais importantes da época, cuja construção constituiu arrojado cometimento e num gesto característicamente seu dôou à cidade de São Paulo várias áreas de terreno na rua Líbero Badaró e no Vale do Anhangabaú. Não hesito um só instante em afirmar que o Conde de Prates foi, no passado, um dos grandes beneméritos desta metropóle tentacular. Consagrando-se também à lavoura, foi agricultor progressista, proprietário da Fazenda de Santa Gertrudes, cujo nome foi dado à estação e à vila proxima hoje elevada à categoria de município. A 162 Klmts. da Capital, a Fazenda de Santa Gertrudes recebeu, no passado e hoje hospeda, figuras ilustres e personalidades da mais alta expressão mundial.

Homem de admirável visão, de experiência objetiva, as suas expansões foram sempre de grande alcance o que o levou a transformar a sua propriedade agrícola naquêle empolgante cenário de beleza e de produtividade.

Era para lá que se retirava ao encontro de justos momentos de lazer em meio à poesia e à solidão dos lagos, das arvores, dos pomares e de seus cafezais. Hoje aquela béla e tradicional propriedade pertence ao Cónde e Condêssa Guilherme de Prates. Paulista de lei, de ouro de melhor quilate, deixou para a posteridade dignificantes exemplos de honradez, de vida laboriosa e de indizível bondade.

Lembro-me, com fidelidade que a mim mesmo surpreende, de quando me chamou à sua cabeceira dois dias antes morrer. Era então aluno do Liceu Coração de Jesus. Perguntou-me pelos padres e pelo Colégio. Relembrou sacerdotes, cênas, personagens e fatos memoráveis que eu não chegara a conhecer. Depois pediu que me retirasse. Nos derradeiros momentos de sua vida dava a prova da sua velha admiração e grande aprêço pela Obra Salesiana.

Sinto que o eminente brasileiro procurou estimular-se na perfeição de sua vida, preparando-se para a eternidade. Brazões, honrarias e dignidades nem de leve lhe conseguiram influenciar o espírito. A altanaria de seu porte escondia uma grande modéstia e as melhores virtudes. De seu consórcio com a Condêssa de Prates deixou quatro filhos: Conde Guilherme Prates, Eduardo dos Santos Prates e Joaquim dos Santos Prates e dr. José Prates, já falecidos.

A 22 de março de 1928, o povo de São Paulo era surpreendido com a desoladora notícia de seu falecimento. Uma tarja de luto cobriu tristemente a Paulicéia que êle tanto amara. A sociedade paulistana soluçou o desaparecimento daquêle que em vida tanto a enobrecera e mais ainda a dignificara.

Hoje, ao celebrar-se o centenário do seu nascimento, a cidade de São Paulo, os homens do seu tempo e as instituições a que pertenceu ou se valeram de seu amparo, evocando a figura de um dos mais completos varões nascidos nesta abençoada terra, que é orgulho do mundo Latina, rendem-lhe comovidamente a reverenciosa homenagem da sua sempre viva gratidão por todo o bem que aqui fez e pelos inapagáveis exemplos que aqui a todos legou.

Que as préces que hoje se erguerem aos Céus, e as flores no Campo Santo se depositarem, sejam o símbolo indelével da permanência de nossa saudade à imorredoura memória do inolvidável Conde paulista.

- Artigo retirado da Revista da Sociedade Rural Brasileira, "A RURAL".
Edição - 476 de Dezembro de 1960.
Escrito por Alberto Prado Guimarães

Obs: Os "erros ortográficos" existem para manter a cópia do texto na integra de sua publicação.

(Relembrando a vida agropecuária, fatos e problemas do passado, em confronto com os da atualidade.)

O primeiro presidente da rural

Comemorou-se em 8 de novembro último, o Centenário do Nascimento do Conde de Prates, o primeiro presidente da Sociedade Rural Brasileira.

Filho de família riograndense, sendo seu pai o Dr. Fidêncio Prates, médico doutorado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e sua mãe D. Inocência da Silva Prates, filha dos Barões de Antonina, desde logo se manifestou Eduardo Prates infenso à política em que, naturalmente, teria feito carreira, visto como seu pai fôra por duas vêzes deputado pela Assembléia Geral na Legislatura do Império. Era costume no tempo da monarquia, transmitirem-se aos filhos essas posições representativas, de modo a se manter a tradição da família de co-responsável na administração pública. Êsse desinteresse pela política êle a comprovou quando, por ocasião da proclamação da República, a sua projeção social em nosso meio, guindar-lhe-ia fàcilmente aos mais altos postos já por si e pelo fato de ser primo-irmão de um prócer da nova situação, de grande prestígio no Rio Grande do Sul em todo o país, o estadista até hoje lembrado com respeito que foi Julio Prates de Castilho.

Ainda muito moço, em 1886, contraia matrimônio com a Sra. D. Antonia dos Santos Silva, filha do Barão de Itapetininga e irmã da Marquesa de Três Rios, família de grandes cabedais, inclusive proprietária de grande área central na velha cidade de Piratininga, onde, Eduardo Prates ficou possuidor de uma verdadeira fazenda no local em que se encontram hoje o Viaduto do Chá - o Largo do Piques - Ruas Líbero Badaró e Formosa, enfim o grande centro da atual Paulicéa.

Espírito empreendedor e meticuloso nos negócios, distinguiu-se logo nos meios comerciais e industriais, figurando o seu nome desde então na presidência e direção das maiores organizações da época. Assim foi diretor da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, do Banco de São Paulo, fundador e presidente da Companhia Central de Armazéns Gerais e da Companhia Minerais "Santa Rosa"; fundador e presidente da Companhia Frigorífica e Pastoril de Barretos e da Companhia de Navegação, além de iniciador de muitas outras emprêsas que floresceram grandemente com a sua hábil direção, das quais daremos como exemplo a Associação Comercial de São Paulo e a Companhia Nacional de Auto - Transportes, a primeira que realizou o serviço de auto-ônibus no Brasil.

De tenacidade inquebrantável mostrou-se, outrossim, quando sem medir sacrifícios, se dispôs a reunir glebas de uma fazenda onde se encontravam 32 condomínios, em uma só propriedade - a até hoje afamada Fazenda "Santa Gertrudes", nas proximidades de Rio Claro, a sala de visitas para os viajantes de escól. Aí o seu capricho de fazendeiro adiantado se fêz destacar não só pelo cuidado com que tratava os seus cafèzais, como, pela variedade de plantações e aparelhagem perfeita para então, atendendo nos mínimos detalhes da fazenda, quer na parte de residência senhorial, máquinas de benefício, arborização, pomares e a parte social dos colonos, a começar pela rica capela até hoje carinhosamente conservada pelo seu filho Guilherme. Lá na Fazenda "Santa Gertrudes", como em São Paulo cuidando da Igreja de Santo Antonio por êle mantida na parte mais central da cidade de São Paulo, continua o filho extremoso a obra religiosa de sua piedosa progenitora a Condessa de Prates que, em consonância com a generosidade de seu espôso, sempre contribuiu a mancheias para as instituições pias, como a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Liceu do Sagrado Coração de Jesus, Orfanato Cristóvan Colombo, Recolhimento da Luz e quantos outros que atestam o espírito cristão da nossa grei. Ao se formar em nossa Capital uma Comissão Promotora da Construção da Nova Catedral, foi o Conde de Prates convidado pelo saudoso arcebispo D. Duarte Leopoldo e Silva, para presidência dessa Comissão nobilíssima, tendo figurado como dos mais entusiastas e maiores contribuintes para a ereção do monumental templo-orgulho de São Paulo e do Brasil. Êsses esfôrços e munificiência, levaram o Arcebispo a conceder-lhe o título nobiliárquico de Conde da Santa Sé.

Quando foi de se realizar o plano Bouvard, de transformação da cidade provinciana na moderna "urbs", deixando de lado qualquer interêsse pessoal, com magnanimidade se colocou o Conde de Prates ao lado do Prefeito Antonio Prado, contribuindo com a demolição de prédios, alargamento de espaços intermediários e plantação de jardins e, sobretudo com a construção de valiosíssimos edifícios de especial arquitetura, adequada ao embelezamento do Vale do Anhangabaú, para que a nossa capital viesse a ostentar êsse aspecto de metrópole que tanto encanta os estrangeiros e que lhe dá a fisionomia artística, por que é reconhecida em todo o mundo.

Êsse exemplo de abnegação e amor à sua terra, deve ser ainda hoje encarecido, quando não se vêm mais comumente desses gestos de fidalguia.

Tendo sido grande em tantos ramos de atividade, o título de que mais se orgulhava era o de agricultor e pecuarista, título êsse que o havia elevado aos mais altos píncaros, sendo modelar a sua Fazenda "Santa Gertrudes". Em Santa Gertrudes, além de encontrarem os visitantes ilustres um grande adiantamento agronomico, iam êles desfrutar os encantos da hospitalidade paulistana nos seus mais altos requintes de distinção e de fidalguia.

Falecido em 23 de março de 1928, a sua memória é sempre reverenciada nesta casa, de que foi fundador e presidente efetivo e honorário, como dos mais adiantados agricultores e dos mais prestantes cidadãos da terra bandeirante.

EPISÓDIOS PITORESCOS

A propósito da comemoração do Centenário de Nascimento do Conde de Prates, cabe aqui um fato pouco conhecido, mas que faz reviver as virtudes da antiga gente paulistana, através das gerações que se vão sucedendo, zelosas das tradições avitas.

Em certo momento, pretendeu-se, a título de remodelação da cidade, demolir a Igreja de Santo Antonio, o que com o valor enorme da desapropriação, poderia dar lugar a ser o templo instalado mais magestosamente em outro lugar. Nessa ocasião o Conde Guilherme Prates, herdeiro das qualidades senhorís de seus ilústres pais, obtemperou ao Arcebispo que não seria com a sua aquiescência que tal se faria, uma vêz que era mantida por si e pela família a Igreja pelos seus antepassados ali erigida no coração da cidade. As observações dos filhos do Conde de Prates, colocaram fundo no coração de D. Duarte, que assim impediu se retirasse da hoje Praça do Patriarca o templo onde rende preito de espiritualidade o temperamento irrequieto do paulistano, mal apontado como materialista e ganhador de dinheiro. Em Nova York, em Wall Street, visitando a modesta Trinity Church, lembramo-nos da Igreja de Santo Antonio e do belo gesto do filho do Conde de Prates defendendo a tradição de religiosidade do nosso povo. Também lá no torvelinho dos negócios é na Casa de Deus, pequena e simples, onde se apaziguam as paixões e se amainam as ambições da moderna Babilonia que é Nova York.

São Paulo, Dezembro de 1960.

Localização

Rodovia Washington Luiz, km 165
Santa Gertrudes - SP - BR
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Cenário de novela
Cenário de novela A beleza estética e a preservação da Fazenda dos áureos tempos do café possibilitaram seu uso como cenário de novelas da época. Veja a galeria de novelas gravadas na fazenda